© 2010, Glauco Campello

Textos » Um projeto de Le Corbusier para Brasília

“Liberdade concentrada em si mesma”

 Hegel

 

1. O projeto para a Embaixada da França em Brasília, uma das obras tardias de Le Corbusier, foi elaborado pelo arquiteto de volta de sua última viagem ao Brasil. Em 1962,  ele esteve no local onde deveria ser edificada a obra e fez anotações no seu “carnet de dessin”. Um gesto trivial, que em Le  Corbusier adquiria a conotação de uma atitude ritualística.

 

“J’étais venu ici. J’ai pris mon carnet de dessin comme d’habitude. J’ai dessiné la route, j’ai dessiné les horizons, j’ai mis l’oriantation du soleil [...] Le premier geste à faire c’est le choix, la nature de l’emplacement et ensuite la nature de la composition qu’on fera dans ces condicions.”1 Numa das páginas, o esboço do plano da cidade com a indicação dos seus principais elementos arquitetônicos.

 

Em outra, alguns rabiscos indicando ao longe, no horizonte da paisagem brasiliense, as duas torres do Congresso, alguns ministérios, a catedral. Umas poucas palavras compondo uma espécie de carta enigmática:

 

“Question faut-il           a) prisme? ou (champignonnière)

                                  b) une champignonnière           

                                  c) sommet prisme / au sol champignonnière

                                  Alors: a ou c  alingnant sur le parlement

                                  Réponse – champignonniére”

 

Todos sabemos que o Governo Francês não construiu o projeto de Le Corbusier. As objeções eram muitas,  e o infatigável defensor de suas idéias e crenças não viveu o tempo suficiente para ganhar esta batalha. A construção por ele imaginada não nos foi concedida, sob o majestoso céu do Planalto.

 

            “Prisme” ou “champignonnière”?

 

            Resposta: um prisma cuja severa geometria é magicamente valorizada pela relação entre os espaços internos e externos da construção; e uma torre de 7 pavimentos, cujos pisos de formas ortogonais livremente recortados estão, contudo, rigorosamente controlados pela forma cilíndrica virtual estabelecida com auxílio do quebra-sol e das varandas.

 

2. A leitura que poderemos fazer desse projeto pode ser influenciada pelo exame das anotações contidas no “carnets”. Mas não se trata, aqui, de fazer uma análise do método de trabalho do artista. Meu interesse é o projeto do arquiteto para a Embaixada de Brasília, levando em conta que a leitura do projeto é coisa diversa da experiência da arquitetura, que só a obra construída pode oferecer. Com a leitura do projeto podemos apenas vislumbrar qual seria o resultado almejado pelo arquiteto. Quando muito, perscrutar as razões que o levaram a preferir tal ou qual solução, e refletir sobre o conteúdo de sua inspiração.

 

Por outro lado, nunca estaremos em condições de afirmar que as indicações contidas na maquete e nos desenhos técnicos são as que efetivamente se realizarão. Isto apenas ocorre em linhas gerais. Não somente as exigências técnicas e econômicas ou as circunstâncias de tempo e lugar interferem, entre um momento e outro, entre o projeto e a obra realizada, como também, o que é mais relevante no caso que vamos estudar, as alterações poderiam decorrer da vontade do arquiteto. Tanto pela necessidade de atender situações imprevistas, quanto, simplesmente, pela evolução de uma idéia, ou em decorrência de novas descobertas plástico-construtivas inerentes à intuição inicial. Estas questões são óbvias, e, com relação à obra de Le Corbusier, podem ser facilmente examinadas nas publicações de suas obras arquitetônicas, onde são apresentadas, em muitos casos, as diferentes fases do projeto e da obra.

 

Os projetos do Convento de La Tourette e do Palácio da Assembléia de Chandigarh, publicados no Álbum correspondente ao período 1952/57, são exemplos desse tipo de problema. No caso de La Tourette, uma primeira maquete apresenta já a volumetria adotada na solução final, mas aí não estão presentes alguns elementos fundamentais do projeto, que aparecem somente na segunda (f.1): os panos de vidro ritmados pelos montantes de concreto, as sacadas dos corredores das celas, a caixa da escada na cobertura. Na construção, a torre sineira (f.2) aparece modificada e, por motivos econômicos, não se realizaram os relevos na parede lateral da igreja - fato do qual resultou, afinal de contas, um espaço mais despojado e mais impressionante (f.3). Mas é no Palácio da Assembléia de Chandigarh que as modificações das diferentes etapas do projeto, até a realização final da obra, são mais surpreendentes. A mais notável evolução é a ocorrida com a forma do pórtico (f.4), que em sua feição definitiva confere ao conjunto força e solenidade. Modificações como aquelas ocorridas com o volume emergente da Sala do Plenário, ou o aparecimento de novos volumes na cobertura (f.5), são acontecimentos ricos de significados, normais no desenvolvimento de um projeto. A alteração introduzida no perfil do pórtico é, no entanto, um achado plástico extraordinário, que simplesmente modifica e redimensiona a natureza do edifício.

 

Se me detenho nesses exemplos, não apenas para mostrar como desenhos e maquetes são etapas preparatórias, ainda indefinidas, da obra arquitetônica, mas também porque eles podem dar uma idéia das transformações pelas quais poderiam passar os projetos ainda sujeitos à metodologia de uma “recherche patiente”. Havemos portanto de não esquecer, ao analisarmos os desenhos e a maquete do projeto para a Embaixada da França em Brasília, que estamos lidando com material representativo de uma proposta arquitetônica talvez ainda em gestação, porventura suspensa em algum ponto de sua evolução, não obstante a sua força convincente de projeto inteiramente definido.

 

3. O que as plantas e a maquete da Embaixada nos mostram, logo de saída, é a divisão do programa em dois edifícios distintos. Um prisma, mais baixo, ladeado por dois planos inclinados, para a residência, e uma torre cilíndrica, com sete pavimentos, para a Chancelaria. Essa separação analítica das funções irá depois, como veremos, desdobrando-se continuamente. Mas devemos notar, em primeiro lugar, que esta primeira divisão permite ao arquiteto conceber a residência como um palácio para as grandes recepções e moradia do Embaixador, enquanto a Chancelaria é um edifício para as atividades administrativas  e protocolares. A residência está na margem do terreno voltada para o lago e a Chancelaria do lado voltado para a cidade, o que concorre, desde logo, para articular os dois edifícios ao contexto paisagístico e urbano. Mas essa separação no plano físico e funcional não ocorre no plano da composição: o prisma e o cilindro, embora interligados apenas pelo traçado sinuoso da via interna que vai de uma testada à outra do terreno, compõem um todo único, visualmente solidário. Uma forte relação, avivada pelas duas rampas, uma espécie de força de atração, emana, por assim dizer, dos dois  sólidos geométricos, criando entre ambos, e à volta deles, um espaço já impregnado de significado arquitetônico. Esta relação seria ainda mais convincente na medida em que pudéssemos imaginar o observador circulando pelo jardim, na presença dos dois edifícios já construídos. É como se cada um dos volumes fosse o complemento do outro, e apresentasse, cada qual, um incremento de seu vigor plástico, em decorrência dessa vizinhança.

 

Lançando o olhar sobre as fotos do projeto não podemos deixar de ser atraídos pelas duas rampas que servem o palácio residencial. Elas nos intrigam e despertam uma viva curiosidade estética. Que papel desempenham esses grandes e sólidos volumes, em forma de cunhas?

 

Não podemos olhar estas rampas sem pensar nos planos inclinados de arquiteturas do passado. Elas refletem o retorno progressivo aos mitos das origens, captados na viagem ao Oriente?

 

É quase inevitável, por outro lado, relacioná-las com as rampas dos palácios da Praça dos Três Poderes. As rampas dos palácios de  Niemeyer se alçam do chão, quase soltas no ar. Algumas são marcadas por uma pausa que lhes acentua a leveza; no Palácio do Congresso,  após o primeiro trecho, divide-se num ramo que segue em nível, enquanto o outro se lança audaciosamente para galgar o teto da esplanada. As rampas da Embaixada de Le Corbusier são planos maciços como terraplenos, que descem do pavimento elevado, ligando o edifício à campina à sua volta.

 

Elas nos parecem tão “arcaicas” que somos tentados a imaginá-las cobertas do pó e das folhas secas do cerrado.

 

4. Examinando mais de perto cada um desses edifícios veremos que tanto aquela distinção das funções, como a relação plástico-visual entre o prisma e o cilindro, desdobram-se num jogo dialético, típico em Le Corbusier. Tanto do ponto de vista da dualidade, a ser resolvida pelo sentido ético de um método projetual 3, como do ponto de vista da interação de formas antagônicas, a ser resolvida numa síntese plástica. 4

 

No palácio residencial logo se percebe o isolamento explícito de cada parte do programa. Separação entre as funções públicas e privadas, entre as atividades sociais e o serviço, entre o vestíbulo e as áreas de uso permanente. Por outro lado, o programa está rigorosamente condensado, a ponto de conferir a esse palácio uma idéia de contenção vigorosa, reforçada, além do mais, pelo seu aspecto de sólido geométrico simples.

 

O programa assim condensado e analiticamente decomposto está distribuído em camadas: ao rés-do-chão, os serviços; no primeiro pavimento, os salões de recepção; na cobertura, a residência do Embaixador. Somente o espaço do vestíbulo, que abriga a escada nobre e o elevador, transgride esta rígida disposição, passando livremente de um andar ao outro. Mas esta disposição do programa da residência não está, de modo nenhum, submetida a princípios exclusivamente funcionalistas. Ela decorre, nitidamente, de um objetivo plástico e da ordem compositiva imposta ao edifício.

 

O “cubo escavado” de Le Corbusier está aqui submetido à sua tendência classicista. De fato as fachadas este e oeste possuem os mesmos elementos compositivos e praticamente o mesmo arranjo entre eles. Embora nas duas fachadas, o amplo reticulado dos “brises” forme uma espécie de casca protetora, externa ao corpo principal, elas podem ser lidas como as fachadas de um edifício dispondo de um embasamento, de uma colunata e de um ático. Ao nível do terreno, as duas rampas concorrem para transmitir a impressão de embasamento, por um processo que poderíamos chamar de “contaminação visual”. A trama uniforme dos brises no pavimento duplo dos salões nobres dá a idéia de uma colunata de ordem indefinível, “intemporal”. O ático formado pela residência privada do Embaixador é o entablamento de uma composição até aqui serena e quase desprovida de tensão. Mas o espaço do vestíbulo rompe decididamente com esta impressão. Nele se concentra o jogo dramático entre o espaço interno e externo, tão ao gosto de Le Corbusier. Ele determina a “transparência” do prisma. Além do mais, ele subverte a composição da fachada, rejeitando ironicamente a simetria, rompendo a face cega do ático e reunindo em seu interior toda a carga retórica do edifício. 5 Temos assim, uma forte tensão resultante da dualidade entre os princípios puristas da primeira fase da obra do arquiteto e o princípio da dramatização dos espaços impregnados de luz e sombra, desenvolvidos a partir de Chandigarh.

 

O tema do pórtico é um motivo recorrente na obra de Le Corbusier, mas é importante notar que no caso do projeto para a Embaixada ele optou pela forma utilizada na Vila Garches de 1927 (f.6), (com o pórtico situado na extremidade da fachada), e não pela forma utilizada no Palácio da Justiça de 1956 (f.7), embora, numa fase preliminar do projeto, esta disposição, (com o pórtico situado num ponto médio da fachada), tenha sido examinada (f.8).

 

O prisma da Embaixada faz parte da família tipológica iniciada com a Casa Curruchet de 1949 (f.9) e desenvolvida nos projetos do Palácio do Governador de 1953, do Palácio para Associação dos Tecelões de 1954 e da Vila Shodan de 1956 (f.10, 11, 12). Mas aqui, no projeto para Brasília, a trama dos “brises” é simplificada, quase uniformizada, e a pureza do prisma mais preservada.

 

Um processo semelhante de simplificação e despojamento ocorre com os espaços internos, fora da zona do vestíbulo. Em razão, talvez, de ser o programa da Embaixada específico mas não individualizado. No primeiro pavimento, após as salas menores para recepção às quais o vestíbulo dá acesso, o espaço com altura dupla que se segue está dividido em duas áreas nobres: um salão para banquetes e um salão para as grandes recepções; o salão de recepções se estende do lado de fora, através do plano inclinado,  até a área da piscina. Nos dois salões, o único acontecimento “retórico” são os braços das vigas que ligam os pilares à parede suspensa do nível superior. Neste nível, por trás dessa parede, estão os quartos duplos e simples para hóspedes. A residência privada do Embaixador, cuja planta e programa seguem os mesmos critérios cartesianos, está localizada no ático. Esta situação permite a adoção de uma escala mais íntima e a garantia de uma privacidade absoluta. Os locais aí situados abrem-se exclusivamente para os pequenos pátios internos,  e, não havendo abertura nas paredes do ático, seu contato com o exterior é diretamente com o céu, e não com a paisagem.

 

Seria a parede cega do ático uma característica do projeto sujeita ainda a modificações? O enfático vigor da fachada não parece admitir esta possibilidade. Nota-se que é retomado, aí, mais uma vez,  um tema da primeira fase – o do apartamento do Diretor, na  cobertura do Pavilhão Suíço de 1930 (f.13); mas, de forma mais radical, pois na cobertura do pavilhão  as paredes do ático dispõem de aberturas para o exterior.

 

O espaço do vestíbulo, com altura de três pavimentos e mais o andar ao rés-do-chão, desempenha, como já vimos, um papel especial na composição deste edifício. Mas seu interesse não se resume à “dramatização” do aspecto plástico-visual do prisma. Ele serve também de elemento explicito – posto que inteiramente visível – da distribuição do programa em setores autônomos. Estabelece a integração entre a zona privada e a pública, entre esta e os serviços.

 

Não podemos deixar de notar, entre os elementos que emergem do jogo de luz e sombra desse recinto, a marquise que assinala o acesso, sobre  a ponte que liga o plano inclinado e o vestíbulo. Esta marquise, perfurada no meio pelo longo pilar ao qual está fixada, é um elemento arquitetônico intrigante. Que significado terá esse episódio? O fato é que esse pormenor foi cuidadosamente estudado, como se pode deduzir dos desenhos que precedem o projeto final (f.14). Ele está relacionado com o princípio de independência entre a grelha de pilares e a organização dos espaços e percursos da planta. Em Le Corbusier, esse tipo de episódio é mais freqüente do que podemos imaginar, e o caso mais evidentemente relacionado a este é o pilar que surge plantado bem no meio de uma rampa, no hall do Palácio do Parlamento, em Chandigarh (f.15). A decisão tem algo a ver com os grandes temas do “primitivismo” e do mito das origens. (No palácio de Cnossos a escadaria monumental de acesso tem uma coluna que nasce bem no  meio dos degraus) (f.16). Uma pequena minúcia como esta, nos leva a pensar em decisão rigorosamente arbitrária. Pode ser ela, simplesmente, a livre expressão de uma vontade?

 

5. Na torre da Chancelaria está presente, mais uma vez, a separação explícita entre as diferentes atividades do programa. Mas no caso de um edifício para abrigar funções administrativas, esta divisão analítica das partes é mais do que esperada. O que interessa observar é o modo como esse critério funcionalista está intrinsecamente vinculado à solução plástica de um problema da estética “cubista”,  freqüente em Le Corbusier: a interpenetração de duas formas primárias, sua combinação e compatibilidade. 6

 

Basta olhar a fachada sul desta torre para nos apercebermos que ela se compõe de um prisma irregular e de um cilindro que o contém (f.17). A caixa dos elevadores e a laje da cobertura, onde estão as salas de trabalho do Embaixador, expõem as arestas virtuais do prisma. A curva das linhas exteriores das varandas e a casca formada pelos “brises”, definem o cilindro. É afrontado este conflito entre dois volumes geométricos buscando ocupar o mesmo lugar no espaço, que se organiza a planta e são atendidas as exigências funcionais do programa. No ângulo exposto do prisma estão os elevadores, escada, sanitários e serviços. Na parte central, o salão ortogonal de recepção que se abre para as varandas, e cuja planta é diversificada em função do programa do andar. Aí desenvolvem-se as atividades públicas, em ambiente movimentado, extrovertido. As salas de trabalho, distribuídas à volta do salão, estão numa zona mais reservada, protegidas pelos “brises”, com vistas para a cidade e o lago.

 

Do interior do edifício, a leitura que se pode fazer do cilindro é de um volume oco, cuja superfície externa, formada pelos “brises”, está incompleta, correspondendo somente à metade do perímetro. A configuração do prisma é acentuada, internamente, pela trama ortogonal dos pilares, que estão sempre presentes, ainda quando a superfície das lajes não os alcançam. Os pisos, recortados em 6angulos retos, de forma diferente em cada andar, estendem-se até a superfície interna de casca do cilindro, sem tocá-la. Os pavimentos dão, assim, a impressão suplementar de pertencerem a prismas de formatos diferentes. Esse jogo complexo de volumes que se interpenetram é resolvido por uma síntese plástico-visual ao mesmo tempo em que são atendidas as exigências funcionais. Como observa Alan Colquhoum: “torna-se necessário expressar tanto o sistema funcional como o platônico, posto que expressar apenas o primeiro resultaria numa desordem aparente, e expressar somente o segundo seria negar uma realidade funcional e instituir uma forma vazia de significado”. 7

 

6. Imaginar esta torre já construída ajuda a compreender melhor sua complexidade. Ela se ergue da campina para mirar, num círculo completo, os horizontes de Brasília, anotados pelo arquiteto no seu “carnet de dessins”. À medida que se vai progredindo num percurso à sua volta, uma sucessão de episódios arquitetônicos vai se desdobrando. A trama dos brises não é regular como no palácio residencial; seus elementos verticais se alternam nos dois últimos andares; em alguns trechos desaparecem para serem substituídos por pilares. O volume dos elevadores surge com um vigor inesperado, assinalando, com ênfase, o acesso principal. De alguns pontos de vista, as varandas, com recortes diferentes entre um andar e outro, introduzem uma distorção na linha vertical de prumo. (É quase inevitável lembrar a Torre e o Batistério de Pisa, desenhados no “carnet” da viagem à Itália) (f.18).

 

Construções isoladas em forma de cilindro são muito raras na obra de Le Corbusier. Mas a torre da Chancelaria de Brasília tem relações sutis com dois outros projetos do mesmo período: o Centro de Artes Visuais para Cambridge de 1961/64, e a Igreja para Firminy-Vert de 1963. No Centro de Artes Visuais a presença de um prisma quadrangular  e de dois volumes curvos que o envolvem é mais do que evidente (f.19), e o tratamento das fachadas em concreto bruto tem familiaridade com as de Brasília, ainda que, no caso do Centro, os “brises” não formem uma casca solta do corpo do edifício. A aproximação com o projeto para Firminy não se deve ao fato da Igreja se destacar também como uma torre isolada, mas a uma outra questão mais complexa: naquele volume estão presentes, simultaneamente, as formas de um prisma quadrangular e as de um tronco de cone (f.20).

 

Em Firminy a “dramatização” não decorre das relações entre espaço interno e externo, e sim da força contida num volume cuja feição “pura”, inesperada, deriva da dualidade entre as figuras geométricas que o determinam. Na Embaixada, a interpretação de volumes e o jogo de “luz e sombra, paredes e espaço” estão condensados, em forma geométricas definidas. Aparentemente, o processo compositivo adotado por Le Corbusier de sintetizar uma dualidade conflitante numa forma nova,  autônoma, poderia, em certo sentido, aproximar estes seus projetos de alguns edifícios de Brasília. As formas puras da arquitetura de Brasília, entretanto, se interrelacionam sem conflito. O mundo onírico evocado pelos Palácios da Praça dos Três Poderes estimula a nossa imaginação com volumes e colunatas abstratas, de clara e surpreendente invenção estrutural. A emoção que provocam decorre da relação entre esses elementos no tempo e no espaço. (f.21).

 

“Alignnat sur le parlement”.

 

Haveria alguma pista nesta frase solta, aparentemente sem sentido, constante das anotações assentadas no “carnet”? Apenas, talvez, a opção pela torre.

 

No projeto para a Embaixada de Brasília, a linha sinuosa das vias internas e a presença de dois volumes definidos e harmoniosamente distribuídos no terreno remetem, de algum modo, à arquitetura de Niemeyer; mas os dois edifícios imaginados por Le Corbusier parecem estar plantados ali, sem se integrarem ao lugar, aprisionados em seu “mundo mítico”. 8

 

O prisma e o cilindro de Brasília abarcam, como outros projetos tardios do arquiteto, os vocábulos e as metáforas da obra do artista, sendo indispensável notar que muitos dos princípios utilizados na maturidade estavam presentes já na fase do purismo: “Souviens-tois du Parténon net, propre, intense, économe, violent, de cette clameur lancée dans un paysage grâce et de terreur. Force et pureté”. 9

 

Notas:

(1)     LE CORBUSIER [Charles Edouard Jeanneret ] . Conversação com os religiosos de La Tourette sobre os princípios do projeto. (Vim até aqui. Tomei meu caderno de desenho como de hábito. Desenhei a estrada, desenhei os horizontes, anotei a orientação do sol (...) O primeiro gesto a fazer é a escolha, a natureza da implantação e, em seguida, a natureza da composição que faremos em tais condições) .

(2)     LEROY, ALINE. “L’Homme aux deux visages”. L’Architecture D’Aujourd ‘ Hui, Paris, 249:90-91, fev.1987.

(3)     GARDINER, STEPHEN. Le Corbusier. Trad. Gilberto B. de Oliveira. São Paulo, Cultrix, Universidade de São Paulo, 1977.

(4)     JENKS, CHARLES. Le Corbusier and the Tragic View of Architecture. London, Penguin, 1975.

(5)     COLOUHOUM, ALAN. “Formal and Functional Interactions: A Study of Two Late Projects by Le Corbusier”. Architecture Design, London, 36:221-222, may, 1966.

(6)     BLASI, CESARI & PADOVANI, GABRIELLA. Le Corbusier e il Design”. Ottagono, Milano 22(85):74-83, 1987.

(7)     COLOUHOUM, op. cit.

(8)     JENKS, op. cit.

(9)     LE CORBUSIER. Discurs no CIAN de Atenas, 1933. (Lembra-te do Partenon, nítido, claro, intenso, econômico, violento; deste clamor lançado numa paisagem de graça e terror. Força e pureza.)

 

Publicado na Revista Módulo / Especial Le Corbusier – nº 96, de 1987.