© 2010, Glauco Campello

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A Restauração do Paço Imperial

 

Ao longo de 240 anos, o Paço se foi transformando. Antes de surgir, em 1743, como  morada do governador da Capitania, as construções ali existentes abrigavam os armazéns do Rei e a Casa da Moeda. À época dos vice-reis era ainda uma casa senhoril, tipicamente portuguesa, com seus três renques de telhados e o terceiro andar de 12 janelas voltadas para o terreiro da Polé (fig.1). No tempo de D. João VI tornou-se um Palácio Barroco, improvisado, com duas fachadas cenográficas: uma voltada para o largo, para o local das paradas e dos eventos cívicos; a outra para o mar, para o mundo das conquistas portuguesas (fig.2). Já na época do Império sofreu uma transformação de influência neoclássica, a menos organicamente relacionada com a sua estrutura tipológica, quase um arremedo (fig.3). Na República, o edifício não pôde fugir aos preconceitos com as coisas do Império. Por causa de seu estado lastimável foi inicialmente recusado pelo Ministro das Relações Exteriores. O Departamento dos Correios e Telégrafos que passou a ocupá-lo, superpôs-lhe, em 1929, uma fisionomia neocolonial (fig.4).

 

O que chegou até nós foi uma construção mascarada por fora, entulhada e semidestruída por dentro. Estava praticamente abandonada, à espera de nova utilização.

 

Para reabilitar o Paço parecia indispensável a recuperação de alguma coisa do que ele já havia sido. Do que ainda existia ali encoberto. Não seria outra vez a vontade de revestir o monumento de um significado especial? Ou melhor, não viria a ser o processo da restauração um tipo de ação que espelhava a linha de evolução peculiar à história de sua construção? Um novo episódio do rol de suas transformações?

 

Como nas várias etapas de sua trajetória, a construção se aprestava a receber uma nova face com vistas a uma nova representação e “status”.

 

Mas havia a destacar uma diferença fundamental entre a intervenção de hoje e aquelas do passado. Anteriormente, cada etapa de obras correspondia ao desejo de dotar o edifício de um novo semblante adaptando-o a um outro propósito que se sobrepunha às funções precedentes. Agora, pelo contrário, se buscava a reabilitação ou revalorização das marcas deixadas pelas diferentes fases históricas e sucessivas intervenções.

 

Com efeito, o Paço restaurado é um novo organismo, constituído dos espaços e elementos arquitetônicos remanescentes ou recapturados. A sua forma está definida pela
aglutinação de valores persistentes e captações de significados especiais relacionados com sua história e importância cultural.

 

Imagem barroca

 

Era irresistível imaginar que o objeto chegado às nossas mãos, em certo sentido, já não vivia, apagado pelas modificações e reformas. Mas havia uma luz que ainda nos alcançava, representada pela sua imagem barroca, como a que vemos na iconografia da primeira metade do século XIX (fig.2) . Esta imagem parecia existir, ainda palpitante, sob a massa quadrangular e monótona em que se transformara o edifício, exercendo sobre os que participaram do processo de restauração uma espécie de magnetismo. Uma atração impossível de evitar.

 

Não foi, contudo, uma decisão fácil liberar o arcabouço oitocentista daqueles acréscimos introduzidos pela reforma neocolonial. Afinal, fora aquela intervenção de vulto, representativa, quiséssemos ou não, de um momento da história do monumento. Ironicamente, as obras de 1929 transformaram a edificação num outro objeto, adotando um estilo cuja principal característica era a de reviver o vocabulário formal do período colonial. No caso, o que estava por baixo desse inusitado mascaramento.

 

A opção parecia resumir-se a esta questão: preservar? Ou restaurar? Preservar seria manter a intervenção neocolonial que não se limitara à uniformização do volume, mas alterara os espaços, recobrira os adornos de pedra, substituíra o telhado e a estrutura dos pisos. Preservar, neste caso, seria privilegiar uma única intervenção. E não era aquela justamente a mais enganosa?

 

Não se tratava de restauração somente. O processo envolvia a recapturação de valores porventura escondidos tanto quanto a descoberta de novas relações entre o objeto e as condições sociais e culturais de hoje. Tratava-se, portanto, de um processo de apropriação, segundo a nossa sensibilidade atual.

 

Seria legítimo recapturar aquela imagem que exercia sobre todos uma atração magnética? A cidade já estava habituada com a feição neocolonial do edifício. Mas, em sua nova forma, ele integrava um espaço urbano tumultuado: com o viaduto, a passarela, o acúmulo de ônibus, o tráfego desordenado, a poluição.

 

Não seria, então, o momento de mudar? De intervir nesse espaço para reverter o seu processo de degradação? A decisão de remover os acréscimos da reforma neocolonial, deixando aflorar outros valores e significados do monumento, tinha, inevitavelmente, esse sentido.

 

A vontade de restabelecer a imagem barroca que por tanto tempo caracterizara o edifício não decorria apenas de avaliação técnica, ou da imanência daquela imagem. Constituía-se também uma ação intuitiva, em decorrência da qual o monumento viria estabelecer uma nova relação com o espaço urbano, impondo o desdobramento da ação de restauração.

 

Linguagens diferentes

 

 Ao longo do tempo, as intervenções no pórtico de acesso, na fachada voltada para o mar, foram confundindo e amesquinhando o seu espaço arquitetônico. O pórtico original ocupava toda a frente do edifício. Um belo espaço da cenografia barroco-portuguesa da época e exemplo de construção audaciosa, com arcos de pedra muito abatidos e delgados, vencendo grandes vãos – obra do arquiteto militar Fernando Pinto Alpoin que, em 1743, transformou em Casa dos Governadores da Capitania os antigos armazéns portuários.

 

Os acréscimos e modificações foram surgindo por diferentes razões: reforço da estabilidade, reformas estilísticas, meras necessidades práticas. O percurso ao longo da fachada foi interrompido com o fechamento dos arcos menores para obtenção de salas isoladas. Entre os dois arcos maiores que dão passagem ao pátio, introduziram quatro colunas de alvenaria com acabamento marmorizado. Complementando essas reformas a pavimentação de pedra foi recoberta por ladrilhos. Tais intervenções encobriram o projeto barroco, atravancavam os espaços e desvalorizavam os arcos.

 

Aquelas colunas estavam ali desde 1850 e tinham uma relação evidente com reformas introduzidas ao tempo do Império, cuja complementação, mais à frente, era o terceiro lanço acrescentado à escada que dava acesso à sala da clarabóia.

 

Assim, estavam presentes no mesmo edifício duas linguagens diferentes assinalando o mesmo percurso de acesso às áreas nobres, as linguagens setecentista e a outra de 1850 e 1929. Não conviviam bem,  uma contrariava a outra.

 

Havia ainda uma questão a considerar. As obras do tempo do Império foram deturpadas ou destruídas com as reformas de 1929. Daquelas quase nada restou. A estrutura do arcabouço barroco, no entanto, não se deixou afetar em suas linhas básicas, sendo que em alguns casos se impôs e ainda prevalecia.

 

Quanto ao pórtico, retirado o pavimento de ladrilho que recobria o antigo piso de pedra ainda intacto, removidas as paredes que fechavam os arcos e demolidos outros elementos acessórios, a construção antiga surgiu com toda a sua força. Em sua feição cenográfica e no apuro de seu sistema estrutural. A remoção das colunas pareceu então inevitável.

 

O ponto mais controverso da restauração do Paço Imperial está no salão da clarabóia encravado no centro da edificação, em local onde quase certamente existiu um pátio aberto.

 

Não havia documentos iconográficos relativos à situação anterior. Tampouco os trabalhos de prospecção apresentaram resultados. O grande número de aberturas nas paredes terminaram por apagar vestígios antigos. Somente os arcos de alvenaria encontrados do lado norte da sala e as caneletas do piso do térreo pareciam confirmar a hipótese de pátio. Também não podíamos afirmar com certeza ser a sala de hoje a mesma da reforma de 1929. Aquelas foram obras de vulto para dotar o edifício do estilo neocolonial. Teriam admitido no seu ponto focal um salão eclético? Parecia improvável.

 

Seja como for, o pátio aberto dera lugar a um recinto coberto desde, pelo menos, o início do segundo Império. Com a tentativa de modernizar a construção colonial, aquele local passara a integrar o percurso de acesso principal, obrigando a construção do terceiro lanço da escada nobre.

 

A modificação da escada tivera algo a ver com as colunas introduzidas no pórtico de acesso, pois elas podiam servir para “forçar” uma perspectiva “neoclássica” até o salão da clarabóia. Surgiram assim, a partir da entrada, dois percursos superpostos e contraditórios. No primeiro a expressividade da construção antiga é respeitada: partindo do pórtico formado pelos arcos e seguindo pelo pátio ganha-se o primeiro trecho da escada; no patamar há uma pausa; depois voltando-se sobre os dois lanços laterais alcança-se o plano do andar superior; dali, através das sacadas, pode-se apreciar de outro ângulo o pátio e o pórtico. No segundo caso a ala formada pelas quatro colunas não chega a valorizar um percurso retilíneo, mas no patamar a escada segue em frente, desdobrando-se na mesma direção, indo desembocar no salão, em posição assimétrica.

 

De um lado, o terceiro lanço de escada perturbava o desenvolvimento do percurso de acesso, tal como seria afeiçoável à construção barroca. De outro, desarranjava a composição da sala. A leitura do espaço ficava comprometida ainda mais pela grande abertura por onde penetrava a escada e pela visão perturbadora do salão eclético. A opção de fechar o vão e eliminar o acréscimo da escada restituiu o equilíbrio às partes.

 

E quanto ao salão? Seu telhado, com o lanternim de vidro, projetava-se acima da cobertura de telhas do edifício colonial. Na presença desse elemento estranho o perfil da construção não poderia ser apreciado na sua plácida feição de palácio barroco-português nos trópicos. Mas, na ausência desse volume, restaria um ponto cego que não saberíamos reconstituir.

 

Ora, o salão da clarabóia era justamente o elemento emblemático onde se concentravam as evidências de um amontoado de reformas e onde estava bem visível o processo evolutivo das últimas intervenções. Aquele recinto permanece, então, como testemunho dessas transformações.

 

Outros espaços

 

O pátio maior - característico da arquitetura de tradição ibérica - havia sido completamente obstruído com uma construção de quatro pavimentos. A demolição desse acréscimo foi imediatamente providenciada; simplesmente porque impedia a compreensão das linhas básicas do corpo do edifício, e por ser essa remoção indispensável à salubridade da construção.

 

Temos hoje, ali, um expressivo espaço quadrangular emoldurado por fachadas de altas e elegantes janelas de peitoril rasgado. As sobrevergas dessas janelas não foram reconstituídas; nas bacias de pedra das sacadas cortadas rentes às paredes, as marcas deixadas pelas intervenções desfiguradoras não foram recompostas. Esses sinais permanecem como registro das interferências de construções que se optou por remover.

 

Noutros locais, alguns vestígios importantes foram trazidos à luz pelos trabalhos de arqueologia. Os mais antigos e impressionantes são os restos dos fornos da primitiva Casa da Moeda. Por isso mesmo ficaram à mostra. Mas não se hesitou em lançar sobre eles uma das escadas novas de acesso ao 2º pavimento. O visitante tem, assim, a oportunidade de apreciá-los de pontos de vista diferentes.

 

Outros tipos de sinais relacionados com a memória do edifício são as marcas deixadas por suas partes removidas ou desaparecidas. Os salões do Paço eram ricamente decorados ao tempo do Império. Seus tetos ostentavam pinturas de artistas da época e os espaços eram mais compartimentados para abrigar os aposentos da família real.

 

Ao nos debruçarmos sobre este edifício tão rico de significados, não dispúnhamos das plantas dos espaços internos do período anterior a 1889. O emaranhado das reformas nos confundia. Por isso, o processo de restauração tomou um caminho peculiar: o de estabelecer uma íntima relação com o seu objeto. Arredando os elementos superpostos aos muros antigos; removendo paredes e forros; recompondo arcos; fechando desvãos; desobstruindo aberturas. Indo, pouco a pouco, desnudando a construção para melhor conhecê-la e interpretá-la em seus traços essenciais.

 

No percurso de volta era impossível a reconstituição de elementos que desconhecíamos. Nem fazia sentido repor as partes que haviam desfigurado o interior do edifício. O resultado são os grandes salões com as marcas e falhas deixadas por essas ausências. Num desses salões, um espesso muro no meio do qual está um arco, não define um espaço ou separa dois ambientes distintos; em outro há extensões injustificáveis, perspectivas alongadas; em todos eles podemos apenas imaginar o que fora a sua disposição interna em consonância com o vocabulário arquitetônico desse arcabouço rude e majestoso. Ali ficaram “anotados”, pelas ausências que seremos capazes de pressentir, tanto os elementos que não chegaram até nós, quanto o desarrazoado das reformas que apagaram os seus traços.

 

     Publicado na Revista “Arquitetura e Urbanismo” nº 23 Abr Mai 1989.