© 2010, Glauco Campello

Museu da Imagem e do Som, Rio de Janeiro

Museu da Imagem e do Som - Rio de Janeiro / 1988

            O antigo Palácio do Distrito Federal, sede administrativa da Exposição Internacional do Centenário da Independência, não tem mais, hoje, seu aspecto rebuscado de construção eclética, concebida para marcar uma presença enfática apesar de seu programa modesto. As flâmulas que esvoaçavam no alto de suas pilastras e cunhais foram, talvez, as primeiras a desaparecer. Sumiram depois, ao longo dos anos, a maior parte dos adornos, frisos e cornijas, os telhados em tronco de abóbadas, as cartelas barrocas. A construção, de 1922, foi-se desnudando; perdeu imponência, mudou de escala, ficou isolada em meio às violentas transformações pelas quais passou o sítio urbano onde está situada. Um incêndio quase a destruiu em 1981.

            Seu significado ganhou, no entanto, um teor diferente a partir do momento em que passou a abrigar o Museu da Imagem e do Som. Desde 1965 foi-se impregnando do significado social e cultural da instituição e o seu recente tombamento pelo governo estadual veio, muito a propósito, consagrar esta situação. Sua antiga aparência de pavilhão festivo está ali mesmo guardada, nas imagens do fotógrafo Augusto Malta. Pode-se ouvir o som de músicas e de vozes que passaram. Ao mesmo tempo, no interior desse arcabouço assim despojado, persistem os espaços arquitetônicos com que foi concebido e a reminiscência dos acontecimentos históricos e mundanos que viveu.

            É isto, em nossos dias, o que mais caracteriza o edifício. Abrigar o Museu da Imagem e do Som sem se desfazer de seus valores do passado, constituindo com aquela instituição uma coisa só: uma evocação de si mesmo e, de certo modo, um organismo novo, com nova destinação e conteúdo.

 Projeto de Restauro

            A restauração da sede do MIS não terá, portanto, o objetivo de recompor em toda extensão a feição original do antigo Palácio. Nas condições atuais, a reprodução de cada um dos elementos decorativos do vocabulário eclético da fachada projetada por Sílvio Rebechi teria a conotação de um “pastiche”. Por outro lado, o despojamento que ao longo do tempo e de tantas vicissitudes foi-se impondo ao edifício constitui, na visão atual, a sua nova imagem. Ela está intimamente ligada à tradição do Museu e decorre deste fato a sua força.

            Não estamos diante de um exemplo clássico da arquitetura, a ser recomposto ou complementado em seus elementos fundamentais. Há, todavia, uma questão a ser encarada de um ponto de vista mais rigoroso. É o problema da volumetria do edifício. Com efeito, a substituição das coberturas em tronco de abóbada por telhados comuns, escondidos por trás das platibandas, alterou a escala da construção, fez perder algo de sua antiga sobranceria. Ela se amesquinhou ainda mais, devido à modernização da cidade e do espaço urbano dilatado à sua volta. A reconstituição de sua antiga volumetria viria recompor as relações entre as partes e devolver-lhe um pouco de sua presença original.

            O processo da restauração da sede do MIS deve, pois, se basear nas seguintes premissas: aceitar os efeitos irreversíveis em conseqüência do tempo, do uso e até dos sinistros que impuseram sua marca à construção;  consolidar a relação entre o edifício a ser restaurado e a instituição que abriga; valorizar os espaços arquitetônicos e os atributos remanescentes da construção; recapturar a volumetria básica da construção original, como meio de restituir a escala e dignificar a sua nova imagem.

            A grande vantagem da opção de separar as funções, permite reservar a antiga sede somente para as atividades públicas num arranjo compatível com os espaços cenográficos da arquitetura do edifício.

            Na proposta de restauro e adaptação do edifício tombado, o programa está reunido em duas partes distintas, ocupando o térreo e o andar nobre.

            No térreo estão o auditório para 60 lugares, as duas salas de vídeo e o estúdio de gravações. O acesso do público é diretamente pelo pavimento nobre. É fácil notar que a abertura sob a escadaria principal lhe rouba um tanto de sua monumentalidade e, portanto, deve ser restaurada. A comunicação com o térreo será pelas duas escadas internas a serem recompostas. Quanto ao auditório, está previsto um pé direito adequado, obtido pelo rebaixamento do piso, desde o acesso do foyer.

            No andar nobre, a que se terá acesso pela escadaria principal, está o grande hall, local cenográfico a ser fruído em seu significado evocativo. Nos salões de pé-direito duplo desse pavimento estão os espaços para exposições – um dedicado à memória de peças e eventos musicais, o outro à fotografia e iconografia em geral. Na parte posterior, biblioteca, fonoteca e videoteca.

            Esta distribuição do programa em zonas distintas tem duas vantagens, a nosso ver. A primeira é tornar mais clara a sua apreensão. A segunda, mais importante, conciliar a distribuição das áreas com a subdivisão original do edifício. A intervenção reduz-se ao mínimo necessário, de acordo com os requisitos estabelecidos no projeto de restauro, e a obra resulta mais econômica.

Edifício Anexo

            Quanto ao anexo, onde se desdobrará o programa de atividades do Museu, o que mais nos preocupou foi a integração desse novo organismo com a edificação eclética a que deverá ficar interligado.

            O novo edifício, destinado a incorporar um auditório, cantina, sala de exposições, lojas, local para pesquisas além de depósitos de acervo, laboratórios e estúdio de gravação, terá de exprimir, obviamente, as características de um abrigo para equipamentos modernos de reprodução sonora e visual. Ele terá de exprimir também as nuances desse programa diversificado, com múltiplas atividades diretamente ligadas ao público e outras de uso restrito, como guarda, catalogação, conservação e reprodução do acervo. Por outro lado, irá constituir com a primitiva sede do MIS um complexo único, funcionalmente articulado. Deverá ainda o novo edifício ser ao mesmo tempo comunicativo, e mesmo aliciante em suas áreas públicas, tanto quanto resguardado, e até protegido, em suas áreas destinadas aos serviços técnicos de infra-estrutura. Ele será, por essas duas vias, uma extensão da sede original do Museu, a qual se destinará, exclusivamente, a exposições temporárias e programas de divulgação.

            Para obter a continuidade desejável entre a construção antiga e a nova, nos ocorreu prolongar o embasamento da edificação eclética, estendendo-o pela área vizinha (onde se localizava, no passado, outra construção do período da Exposição de 1922) e sobre esse embasamento erguer o novo prédio, de características arquitetônicas atuais, sem no entanto descurar a almejada continuidade visual. O trecho do embasamento ligando uma construção à outra foi concebido como uma ponte, de modo a não interceptar o fluxo de transeuntes na praça onde ficará situado o novo conjunto.

            Ao rés-do-chão, no andar formado pelo embasamento, limitado por seus muros espessos providos de pequenas aberturas, estão as atividades de uso restrito, de acesso exclusivo dos funcionários e técnicos, além do estúdio de gravação que disporá de entrada independente.

            O público tem acesso direto ao andar elevado, como ocorre na construção antiga. Essa primeira alusão semântica é enfatizada pelos pórticos em arcos, tanto do lado norte aonde está a escada ao ar livre, como do lado sul, aonde chegam a rampa e a ponte entre os dois edifícios. Outra recorrência bem perceptível que ajuda a relacionar visualmente as duas construções é o pé-direito alto, de mais de seis metros, no pavimento elevado do novo edifício.

            O que caracteriza a concepção espacial desse pavimento elevado é a rua-galeria, eixo longitudinal ao longo do qual vão se agrupando as partes diferentes do programa a que o usuário tem acesso. A rua-galeria, que evoca um tema característico da arquitetura do ecletismo, tem a função de promover e facilitar a comunicação entre o Museu e o público. Luminosa e convidativa, ela valoriza o contato com as atividades de uso coletivo presentes na nova edificação e concorre também, ao se prolongar externamente pela ponte, para articular funcionalmente a sede primitiva e o anexo.

            Os locais das atividades agrupadas ao longo da rua-galeria se constituem em volumes autônomos, caracterizados de acordo com suas diferentes funções. Mas eles assumem, ao mesmo tempo, as formas capazes de estabelecer uma afinidade visual com o antigo edifício, sem no entanto abdicarem de sua condição de construção nova, expressão de uma linguagem atual. Sem embargo de sua fragmentação e configuração variada, esses volumes contribuem para a formação de um todo coeso, tanto entre eles mesmos como na relação mais ampla entre o edifício novo e o antigo. 

 Publicado na Revista “Arquitetura e Urbanismo” nº 32 Out Nov 1990